terça-feira, 27 de abril de 2010

Milito vs. Milito

Na quarta-feira próxima, teremos diante de nós o segundo capítulo da final antecipada da Liga dos Campeões de Europa – assim espero. É o segundo jogo semifinal entre o melhor time de futebol do mundo, o Barcelona, e o time de mais élan e obediência tática entre todos, a Internazionale. O primeiro joga pela história: consagrará a idéia verossímil de unir arte com resultado, se descontar o placar adverso e deveras surpreendente de 3 x 1 sofrido em Milão. A segunda joga pela vida de várias gerações de torcedores frustradas em ver o rival, Milan, ganhar sistematicamente o maior torneio de futebol disputado pelos clubes europeus, nos últimos vinte anos. Ademais, em meio a profusão de estórias que permearão o enredo desse cotejo que põe à prova a excelência de escolas de futebol tão diferentes – poucas vezes o futebol arte foi tão arte quanto nesse Barcelona, assim como o Catenaccio italiano, há muito tempo, não se vê representado de forma tão digna como pela Inter do treinador Mourinho -, existirá uma que, desde que foi deflagrada com a suspensão automática por acúmulo de cartões do zagueiro catalão Puyol, despertou-me uma profunda compaixão pelos que a escreverão: sofro pelos irmãos argentinos Gabriel e Diego Milito.

Não havia nem a necessidade do comentário prontamente feito pelo PVC, à hora da punição ao capitão do Barça: “Será a primeira vez na história da champions league que um irmão enfrentará o outro em fase tão aguda”. Tanto não havia premência que posso até estar enganado sobre a fase – em última instância, até a frase pode ter sido um pouco diferente. Não importa. O fato é que Gabriel Milito será um dos beques do Barcelona, semana que vem. Danei-me a matutar e logo concluí que nunca será igual jogar contra um irmão como se faz sempre contra qualquer adversário sem laço sanguíneo tão forte. Impossível foi não pensar que a partida pode trazer o que há de mais enterrado na alma tanto de um quanto do outro. Se a relação de irmãos está quase sempre bancando o equilibrista, o que será dela com a lufada ciclônica que virá junto com o jogo de futebol do ano?
Que a família dos outrora jovens Milito era boleira, parece não nos restar gota de dúvida. Só de um ambiente entulhado por discussões clubísticas, peladas e idas ao estádio poderiam frutificar dois jogadores profissionais de certa eminência, e aí pode-se destacar Diego Milito. Pois, então, é justamente nesse ponto que a compaixão em mim, pelos dois, recrudesce. Desde os tempos de Racing Club, Milito – Diego - marcava tentos, despertava a simpatia dos torcedores e o interesse carnívoro da mídia pelos grandes atacantes, os protagonistas do espetáculo. Diego Milito, desde novo, já entrara no rol dos que vendem jornal: os que fazem gols. Pelos idos de 2001, lembro bem do Milito artilheiro, levando a sua sofrida Academia ao título esperado e mitificado por mais de três décadas. Já Gabriel, anunciara, desde as suas primeiras partidas o que seria para sempre: um zagueiro de mediano para bom. Não havia nada nele que pudesse alçá-lo, um dia, ao patamar do irmão.

Nas minhas memórias de aspirante a jogador de futebol, lembro-me de vários casos de irmãos futebolistas, principalmente nas experiências que tive de jogador amador; e o que me deixa aflito por esses dois irmãos que nunca conheci para além da impessoalidade da tela de televisão é a guerra velada que os pais impunham, impetravam aos seus queridos descendentes. Mesmo na minha falta de sabedoria juvenil, achava os pais de atletas moços muito irritantes. A forma como lidavam com os treinadores, com os outros pais, com os pais de atletas de times adversários, como cobravam exasperadamente seus filhos me consternava. Em contrapartida, havia meu pai, que me consultava ao menor sinal de dissabor que eu, volta e meia, demonstrava, em decorrência daquela rotina de treinos e pais mal educados, deixando-me livre pra decidir sobre minhas prioridades. Meu velho pai era uma exceção.


Mas, fora de ordem mesmo era encontrar um pai de irmãos jogadores como o meu. Eles sempre tinham um preferido, que era o que melhor jogava, invariavelmente. A sua predileção contagiava toda a família e vizinhos que iam ver aos jogos nos Domingos pela manhã. Se um dos filhos apresentasse evolução e ultrapassasse em talento o irmão já consagrado na predileção da família, a bajulação mudava do primogênito para o caçula num piscar de olhos, fomentando o recalque e mais outros sentimentos inerentes a irmãos criados numa atmosfera de competição entre si. Se um dos irmãos inventava uma nova jogada, um novo drible, o patinho feio da família tentava copiá-lo, em busca de gols, passes e carinho. Era triste ver que o estorvo da família logo se tornava um menino sério, tenso, frustrado e arredio. E, às vésperas do embate entre dois dos gigantes escretes do futebol europeu, posta está a questão: quem teria sido Diego, quem teria sido Gabriel? A quem foi devotado o amor exagerado e envaidecedor? A quem foram relegadas as migalhas de pai e mãe?

Eu cresci em meio a essas agruras familiares. E, logo, vejo um pouco dessas experiências do passado refletidas nos irmãos argentinos. Não duvido: pelo estilo de jogo aguerrido dos dois e pelo sucesso de suas carreiras, a última coisa pela qual passa por suas cabeças nesse momento é que vão ter de se enfrentar ( o que torna pior o embate é que eles jogam em posições onde o fracasso de um vai ser o sucesso do outro. Eles irão duelar diretamente, vão ter vários “um-contra-um” durante os noventa minutos, serão atacante contra zagueiro, irmão tentando subjugar o outro ). Contudo, quando a bola rolar, tenho certeza que aqueles sentimentos da infância, aquela falta de tato dos pais, o coágulo parcamente estancado vai sangrar. Isso, claro, se o Milito pai for como aqueles patriarcas descerebrados dos meus tempos em que sonhava em ser jogador de futebol. Como nunca presenciei – pelo menos não me lembro, exceto por um pai, chamado Sinésio - algo que não fosse essa destrutiva forma de deseducar irmãos jogadores, não tenho ilusões quanto às cartas que estarão à mesa na partida do Campo Nou: inveja, competição e tragédia.

Que ninguém tenha que sentir o peso nos ombros dos irmãos – a não ser os próprios -, como se fossem seus, os telespectadores de um jogo tão marcante e importante para esse final de década no futebol - é; porque, para mim, vai ser difícil: são demasiada atávicas as lembranças. E que os irmãos Milito possam jogar contra um adversário de uma camisa diferente, somente, apesar de saber no fundo da minha alma que isso é bastante improvável. Eu sei que seus fantasmas sairão de suas tumbas quando, face a face, um contra o outro, revolverão os irmãos a poeira há tanto embaixo do tapete a cada jogada, falta, a cada segundo.

Vitor Gouveia

Um comentário:

  1. Muito bom texto, meu filho!! Além de um "wikipédia" do futebol, foi também um emocionante relato de sua experiência familiar-juvenil (ou infantil(o), junior, fraldinha... não sei qual categoria amadora disputou...), nessa disputa com seu irmão.
    Esforçar-me-ei para escrever como ti. Só falta aprender a colocar o texto nesse blog...

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