sábado, 15 de maio de 2010

O Homem que não estava lá


Com o drama inequívoco e esperado devido ao momento vivido nesse ano, o Fluminense conquistou os primeiros pontos nesse campeonato brasileiro meio barro meio tijolo. Isso sempre acontece em todos os anos, quando boa parte das equipes está em estágio decisivo em outras competições. Assim, enfrentamos um Atlético Goianiense misto, com direito a Rodrigo Tiuí e tudo!

Começamos o jogo ainda confusos pela alteração tática mais do que premente, desde a morte do Time que Guerreiros ainda no Estadual. Os três zagueiros foram extintos para a entrada de mais um meio campista. Isso gerou certa confusão no início do jogo, pois a dupla de volantes não se achou com os zagueiros , que não tinham mais aquela opção de saída lateral do zagueiro da sobra para os que jogam abertos. Nossos laterais, que há tanto tempo jogavam de ala, viram-se presos à boa marcação do time rubro-negro, principalmente no primeiro tempo. Sem a ajuda dos atletas mais qualificados para saída de bola, os nossos zagueiros, Digão e Leandro Euzébio, tiveram que tomar à dianteira. O resultado foi quase um pastelão. Mas o espetáculo de horrores foi curto. Logo o Fluminense se assentou na cancha, porém, longe ainda de jogar um bom futebol.

Contamos com a estreia do atacante Rodriguinho, que veio do surpreendente Santo André. Gostei do que vi. Não que o debutante tenha feito uma grande partida, mas mostrou que possui uma valência rara no elenco tricolor: ele joga de costas e faz a bola ficar mais no ataque. Além disso, Rodriguinho ocupa uma faixa distinta do homem de área, coisa que o Alan é incapaz de fazer. Vai dar caldo com o Fred.

Mas o primeiro tempo beirou o sofrível. Se compararmos o futebol de hoje com os das últimas partidas, vamos enxergar uma evolução, principalmente tática, já que tecnicamente, a rapaziada ainda está meio de mal com a bola; não obstante, nosso time criou mais chances e não seria exagero dizer que poderíamos ter vencido a peleja até os quarenta e cinco minutos iniciais. Para ilustrar a pobreza do time: o Diguinho, que vinha sendo uma luz na medíocre escuridão, jogou bem abaixo das suas atuações recentes, o que não justifica o soar das cornetas nervosas sedentas por uma assopradinha.

Antes de virar de lado, contamos com um Conca irregular, mas, convenhamos: dividir a armação de um time com um sujeito mais esquivo que um gato é difícil. Marquinho tem mais medo da bola que um tímido da multidão. A verdade é que o rapaz mais querido dos últimos quatro treineiros do Fluminense desenvolveu uma técnica apurada: onde a redonda vai, ele nunca está.E o caro leitor tricolor rememorará, sem maior esforço, o Davi, que foi uma espécie de precursor do nosso fantasminha camarada. Tanto o primeiro quanto o segundo não se expõem, por isso erram pouco. É diferente com o Júlio César, por exemplo: como ele ocupa uma parte muito específica do campo, não há como engambelar a visão do torcedor. Se o nosso lateral perseguido – hoje, injustamente, diga-se de passagem – tiver que maltratar nosso coração tricolor, ele o fará, porque a bola precisa passar no setor dele, e ele não tem para onde correr – será que é por isso que o freio de mão dele está terminantemente puxado? Já o Marquinho ocupa a faixa central, e ali é fácil colar num marcador e consagrá-lo. E é justamente isso que o nosso jogador Bombril faz – hoje ele foi parar na lateral novamente, depois da saída do Júlio César . Mas a saga do nosso fantasma não acaba no empate tísico à hora do intervalo.

Na segunda etapa, o Fluminense demorou a se encontrar, menos os zagueiros, que pareciam ter tomado um passe no vestiário, principalmente Leandro Euzébio. Quanto ao Digão, espero que não tenha sido fruto de pajelança, e sim que seu futebol de beque seguro tenha retornado de vez. Precisamos muito dele depois que o nosso playboy poliglota e bom defensor de sobra, Dalton, deu uma de esperto e danço miudinho com o jurídico do Flu. Outrossim, os nossos zagueiros foram tenazes, altivos e jogaram realmente muito bem!

Seguíamos perdendo muitos gols, a despeito do futebol bem mais ou menos apresentado – a verdade é que se o Fluminense não estivesse tão pressionado, a partida de hoje seria vista por um prisma de mais complacência: não jogamos tão mal quanto nos pareceu, quando a emoção já nos usurpara a razão. O rendimento do Conca cresceu, e com ele o time ganhou mais alma, fruindo assim melhor das suas potencialidades. Mariano, o maior órfão do Maicon, ganhou a ajuda de Rodriguinho, que foi jogar por lá. Bela sacada do Muricy, que levou os defensores goianos para o lado direito do Fluminense, o que abriu mais caminhos para o nosso lateral esquerdo que gosta de um freio puxado. O meio campo chegou mais perto do ataque, o que agrupou nossas peças, dando, inclusive, a possibilidade de uma contumaz marcação-pressão há muito relegada a segundo plano nas Laranjeiras.

Quando o jogo descambava para o triste fim, fosse ele o empate modorrento que já dava suas caras ou, na pior das hipóteses, uma derrota apocalíptica, o fantasma deu as caras. Foi aí que o gênio incompreendido reluziu. De fato, ninguém vê o Marquinho; nenhum adversário lhe devota a reles diligência. Dessa feita, o jogador que não causa espanto, que não coloca o oponente em apuros é como um cone: a única preocupação com ele é não esbarrar, trombar com o inútil e inócuo futebolista. E foi justamente ao emergir do seu esquecimento abissal que o Marquinho nos deu a vitória. Quando o Mariano arrancou em diagonal, feito um guepardo, da direita para o centro da área inimiga, nenhum atleticano se preocupou com o espírito sem luz. Ora, fantasma não faz gol! Bem, quando ele sai do limbo subitamente, faz sim senhor. E com a faca e o queijo às mãos, o sempre desmarcado e inútil meia chutou cruzado. O goleiro chegou a tocar na bola inferida pelo espectro que tanto nos apavora, mas não houve apelação. Gol Tricolor! Gol de quem nunca esteve lá. Sinistro!

Para completar a noite de Thriller, todo esse turbilhão do segundo tempo foi desenrolado num completo silêncio de casa assombrada, já que, mais uma vez, o Fluminense atacou para o gol da estrada de ferro no primeiro tempo, fazendo a torcida se fragmentar no Maracanã com o tradicional translado do público nos quinze minutos de paralisação entre um tempo e outro de jogo. Será possível que a diretoria não se importe pelo menos com isso, em jogar com a torcida nos dois tempos, já que para tantos outros temas ela dá as costas solenemente? Basta só dar uma “alô” para o capitão do time e assim ele o procederá no toss.

Como os reforços virão somente no segundo semestre, o jeito é somar o máximo de pontos possível até a paralisação para o Mundial da África do Sul. E já que teremos de aguentar nosso fantasma da bola, que ele traga consigo, do além, o Gravatinha para interceder a favor dessa pobre alma que pena nos universos paralelos de um campo de futebol, sem ser notado por ninguém.

E quem poderá dizer que não foi o velho Gravatinha que chutou aquela bola? É mais crível do que acreditar em fantasmas, não?

Vitor Gouveia

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Vamos pra cima deles, Mengo!!


Muito prazer, sou Urubu Folgado. Sentimento metafísico (sic) e materialização do Ser rubronegro. Flamenguista. Convidado pelo meu brilhante colega (sofre)tricolor, postarei minha visão de jogo.

Em muito apreço que trarei a opinião e fomentarei as dicussões da pelada in stadium, televisiva ou no racha coco. Confesso não estar tão participativo daquela com os amigos, aliás, não tenho jogado. Mas também respiro futebol. O Flamengo joga o ano inteiro. Todavia, acho interessante o lado investigativo dos managers capitalistas, da grana alta e enrequecimento rápido. Euros. Altera as perspectivas dos jogadores, do time e das seleções. Principalmente a nossa. Futebol não é dinheiro, mas esse é só um lado da moeda.

Não vou falar em cifras $, prefiro o sentimental do jogador, a opção que lhe foi dada e as vantagens para grupos superiores e articuladores. A cartolagem. Alguém tem que bancar, consequentemente, lucrar. Porém, futebol se ganha no gramado, jogador contra jogador. Quem corre mais. Gol é gol e ponto. Perdeu, já era. Emocionante. Visualize: campo batido, onze de cada lado. Olha pra cima, sol branco, céu azul. Rola a bola...

Essa semana é brava. Começou no domingo, estréia do incógnito Brasileiro. Chuva, Maraca vazio, empate. Mas jogo bom de se ver. Bons atletas (sim, atletas). Caras que não compreendo suas ausências na Seleção de agora. Enfim, seleção, grana, Copa... Deixa pra lá. Mas foi bom! Sou fã das Cadeiras. É possível, bem localizado, entender o desenvolvimento dos times. Chutes precisos e caneladas vergonhosas. Ainda nos falta ataque reserva. Verdade que era um mixto de jogadores, ambos os lados, mas pegado e no espírito da coisa: cada jogo são três pontos pro final. Ganhará um dos quatro primeiros que chegarem, últimos jogos decisivos.

Cada um sabe de sua História com o Maracanã e agora o Engenhão. Esse último, devemos nos preparar. Companheiro carioca durante um bom tempo, segundo as faladas previsões. Mas fui no jogo contra os tricolores paulistas acompanhado de familiares. Não meus, mas um grupo. Que todos tenham dias felizes assim. O estádio é o quintal do torcedor, o acesso é sua rua. Vai explicar isso pras torcidas do Mengão...

Seleção de Dunga ainda estamos em estado de choque. Qualquer diagnóstico será precipitado.

Quarta última. Não aceitei ir ao jogo. Confesso ainda estar triste com a distância, mas esse não é o problema. Paga-se muito caro pelo espetáculo. A multidão é fantástica! Não tenho tempo para fila de ingresso. Mas se tiver que ser, será. O Flamengo foi descuidado diante de um bom time. Há talentosos na outra camisa. Jogo duro, gols perdidos pra ca%&*#!!! Mas são só 2 gols!!! Depois só depois da Copa, outra cabeça... Cheguei no centro de caridade - bar - Takin, aqui perto de casa. Levei minha bandeira e camisa nova. Ambas ainda não tinham dado sorte (sic). O dono é alvinegro cri-cri. Não teve problema, armei bandeira na parede. O Flamengo estava ali. Lugar arrumado e outro erro: tinha um vascaíno do meu lado. Dias como aquele não podem haver vacilos. Tanto dos jogadores como da torcida. Brincadeira. Em tempo, Denis Marques não joga na minha pelada nem na do Saci "camisa 7". Não há nenhum neymarzinho nos juniores??

Aos poucos, vou contando minhas histórias para vocês. Sou bom nisso, tenho até diploma. Mais uma vez obrigado, Vitor. É tricolor mas é gente boa!

Estamos feridos, porém, não mortos. Quinta que vem tem mais. Antes, no sábado vamos testar o Viáfara, contra o rubronegro baiano. Adriano e colombiano, qual mescla vai dar???

domingo, 9 de maio de 2010

E se fosse o Cuca?


E se fosse o Cuca a escalar o Wilians no ataque?
E se fosse o Cuca a dizer que o Fluminense brigaria pelo título jogando essa bolinha?
E se fosse o Cuca à beira do campo dando instruções para jogador nenhum ouvir?
E se fosse o Cuca a substituir três jogadores, sendo que nenhum deles era o Marquinho?
E se fosse o Cuca a sacar o Ewerthon do time?
E se fosse o Cuca a isolar o Mariano no lado direito do campo?
E se fosse o Cuca a deixar o Equi no banco por toda a partida?
E se fosse o Cuca a dizer que o elenco precisa de reforços?
E se fosse o Cuca a perder três partidas em série?...

Estaria pairando na torcida a complacência franciscana de agora, nesse pós-derrota?

Duvido!


Vitor Gouveia

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O País dos Peladeiros



Eu sou peladeiro convicto, inveterado. Não há quase nada que me faça perder a oportunidade de bater a sagrada bolinha uma, duas, ou, quiçá, três vezes por semana. Não precisa ser com aquele grupo fechado muito comum entre peladeiros de toda cidade, com direito a hierarquia bem delineada, arrecadação mensal, prestação de contas, confraternizações periódicas, jogos amistosos contra outros quadros amadores. Basta um telefonema fortuito, uma mensagem de texto de um amigo que anda meio distante, um e-mail de um colega de trabalho ou mesmo através desses encontros casuais com conhecidos feitos por tantas e tantas peladas por essa vida, e lá eu, com minha chuteira, estarei.

Mesmo que eu saiba que exista um prazer essencial a qualquer tipo de pelada, que a simples repetição desse ritual, o futebol praticado entre os eternos aspirantes – no sentido de que, mesmo que a sapiência consuma feito vírus o que há de juvenil em nós, sempre nos pegamos sonhando com os mesmos gols que idealizávamos ainda imberbes, meninos -, é deliciosamente revigorante para a alma, sei que uma pelada pode encerrar em si mesma um universo particular, cerrado a sete chaves do mundo externo.

Alguns círculos do futebol amador, no Brasil, definem com surpreendente retidão a paixão – ou a falta dela? - do brasileiro pelo futebol. Todos aqueles chavões cunhados ao longo do Século passado, repetidos sistematicamente pelos diferentes setores da nossa sociedade criaram uma imagem um tanto macunaímica do brasileiro, ser invariavelmente fanático por toda modalidade e manifestação da cultura do futebol. O mundo das peladas é um ótimo parâmetro para rascunhar – porque é impossível precisá-lo – o boleiro típico.

Existem incontáveis realidades contíguas no mundo dinâmico das peladas tupiniquins. Cada peladeiro ocupa seu espaço em uma casta. A grande maioria dos futebolistas por paixão segue satisfeita com o que tem, sem ambição maior, sobretudo os que, desde a infância, resignados, sabiam que a arquibancada ou o periodismo seriam para todo o sempre o mais próximo que chegariam do realismo fantástico do nosso esporte predileto. Esse joga sem traumas maiores, erra um passe e sorri, perde uma partida sem o menor sinal de apego a ela como quem deixa um pirulito caiar da boca. Tal peladeiro joga pelo prazer de estar com os amigos, ou pelo milagre que vez por outra acontece de fazer uma jogada de antologia, em meio a tantos outros caneleiros que compõem o cenário e o enredo desses opacos jogos periódicos. Driblar um Zé Ninguém tem um valor imenso; fazer um gol num goleiro de mentira gera uma excitação sem par, mesmo que dure um mero instante. Aquilo pode revolver os sonhos mais petrificados, aqueles que existiam na criança antes dela própria diagnosticar a canelice aguda que a acompanhará até a tumba.

Um outro tipo de peladeiro é aquele que chamarei de médio. Esse detém alguma técnica, ou em casos mais específicos, desfila um talento que pode ser adjetivado como inato. Esse jogador possui, na maioria das vezes, acesso às peladas de bom nível, que contêm mais elementos em comum com o jogo profissional que aquela pelada mal ajambrada do exemplo primeiro. Tal jogador pode advir de origens diferentes. Muitos deles foram jogadores de categorias amadoras, com sucesso variado. Certos indivíduos desse grupo heterogêneo tiveram oportunidades em algum clube de grande porte, ou mesmo chegaram a exercer a profissão de jogador. Mas esses são, em via de regra, exceção em meio à composição desses peladeiros. Contudo, quem se insere nessa categoria já gozou de certa fama, fosse na família, num clube, escolinha ou no seu bairro. Todos eles conviveram em algum momento da vida com os sonhos de jogar profissionalmente, alimentando-os a cada elogio que recebiam. Em determinados indivíduos, o sonho ainda os persegue, seja para alimentar o esforço de seguir tentando, seja para cultivar uma lembrança lúdica, sem maiores desdobramentos psicológicos: o trauma de não ter sido o que se sonhou na idade de sonhar .

O terceiro grupo é o mais interessante e misterioso, sem restar qualquer dúvida para quem se debruçou sobre o assunto. São os atletas amadores, que seguem jogando sem remuneração e preparo adequado; entretanto, praticam o futebol num nível de excelência e competição quase profissionais – alguns desses homens nos despertam compaixão, a cada jogada brilhante, a cada lance que os credenciariam ao disputado e incoerente mercado da bola que, por incontáveis e injustificáveis razões os alijou. Nesse universo reluzente, existe um ritual que se repete em toda cidade quase sempre da mesma forma, independente de classe social ou local onde ocorra. Por esses campos do Rio de Janeiro, é possível encontrar incontáveis campeonatos de pelada. Alguns já são realizados há muitos anos e compõem a paisagem de vários bairros e regiões da nossa urbe. Após a proliferação dos campos de piso sintético, os campeonatos ganharam em qualidade, mas nem a precariedade dos anos anteriores era capaz de afastar esses desportistas dos seus sagrados finais de semana de jogador. O futebol amador brasileiro é uma instituição tão secular quanto o futebol profissional.

Os times são um caso a parte. Aqui na Zona Oeste do Rio aprendemos desde molequeinhos os nomes desses marcos importantes da identidade local: Verdinho, Mocidade, Ás de Ouro são nomes que sempre simbolizarão a Meca dos boleiros que, não por falta de talento, desviaram-se do caminho do esporte profissional. Quando pequenas, as crianças passam os Domingos à beira do campo, observando um jogo atrás do outro, com seus craques exibindo seu talento desperdiçado. Nos intervalos entre um match e outro, são os meninos que entram aos borbotões no relvado numa frenética correria para marcar seus gols naqueles modestos campos que ficam momentaneamente no ocaso efêmero entre uma peleja e outra. Todos eles, os meninos, são magnetizados com as imagens e estórias de artistas do submundo do futebol. Não sei se aquilo tudo - a arte, os espetáculos, as rivalidades - datilografado em minha memória é verdade. A infância e a influência dos mais velhos podem ter distorcido substancialmente o que há de crível nessas minhas românticas lembranças. Mas é inconteste que preciso segurar a tietagem dentro de mim para não deixar transparecer a admiração de décadas que tenho por esses gigantes invisíveis. Eu jogo com eles, converso, debato, mas me parece que nem eles sabem do que despertam naquelas crianças e pré-adolescentes à beirada de onde sonham estar quando houver idade e futebol suficiente. Então, me calo - até a presente crônica estampada nesse blog.

Havia falado anteriormente do ritual. Ele existe e é pitoresco. Para se tornar um atleta amador é necessário ser aceito num grupo restrito, composto por grandes boleiros. Quem desbrava a fronteira dessa sociedade inflexível veio das categorias de base – campeonatos de meninos que acontecem usualmente nos mesmos campos, só que aos Sábados – ou de um outro círculo de boleiros, trazido de um outro lugar da cidade por um amigo. E quanto melhor jogador for esse amigo que o introduz o novato, mais paciência haverá para que esse pratique bom futebol. Quem traz para o plantel alguém que não jogue tão bem para fazer parte de um time de pelada, sofre com gozações que podem ser eternas. Há chance do peladeiro médio entrar ou retornar à esse grupo. Mas este normalmente não o faz, nem mediante pedidos e a sedução do dinheiro – existe remuneração em alguns casos, principalmente se houver um patrocinador entusiasta das peladas. O peladeiro médio, por muitas vezes, é um ser cansado das contusões, brigas, rivalidades e, principalmente, do compromisso sacerdotal necessário aos peladeiros amadores.

Os atletas amadores constituem um mosaico de estilos e personalidades diferentes entre si, mas, mesmo a essas distinções aplicam-se impressionantes semelhanças com o jogador profissional. Assim como podemos ver profissionais da bola mercenários, mascarados, carniceiros, craques, estrelas, sortudos, arredios, resmungões, vencedores, controvertidos, também vislumbramos nitidamente tais características tão intrínsecas ao amador da pelota. Não é raro nos depararmos nesses bairros suburbanos com as mesmas celeumas do futebol praticado na escala máxima, profissionalmente. Sempre há aquele que muda de time às vésperas do início do torneio, seja pela lábia de um outrora adversário, seja pelo aporte financeiro que possa existir – quando não, pode ser cerveja, ou uma chuteira nova, ou mesmo a realização de jogar nas equipes mais tradicionais e vencedoras. Na outra ponta, há o fiel, que jogou uma vida inteira pela mesma camisa, por vezes seguindo já um traço familiar, atravessando uma vida de sobressaltos que um time amador, assim como os quadros profissionais, enfrenta: secas de títulos, problemas financeiros e operacionais, perseguições sistemáticas dos árbitros, conflitos internos ou o fim da carreira dos seus principais jogadores.

E se os jogadores profissionais estão cada vez mais desgarrados das instituições magnas do futebol, os clubes, isso gera um reflexo imediato no comportamento da esmagadora maioria dos boleiros sem fama dessa cidade. É clara e evidente a fascinação que o mundo de pompa e glamour do profissionalismo ainda exerce sobre essas pessoas que estiveram tão perto de realizar a proeza de ser um eminente futebolista. Se há um material esportivo novo, por exemplo, o atleta amador logo o adquire, menos para aumentar seu rendimento do que para recrudescer o desencanto por não estar no lugar daqueles afortunados que jogam tanta bola – na maioria dos casos, até menos – quanto ele. As cores tropicais das chuteiras que calçam os pés famosos são as mesmas cores que estampam as chuteiras que chutam as bolas nessa imensidão de campinhos espalhados por todos os cantos. Os cortes de cabelo, os perfumes, o estilo musical, o linguajar, e até as marias-chuteiras são as mesmas – no caso das mulheres de peladeiros, ainda há para elas a esperança de sair do limbo para o estrelato; não pelo peladeiro com o qual ela se enlaça, e sim pelos contatos que a moça vai estabelecendo a partir desses campeonatos de importância reduzida, até chegar a uma festa ou boate recheada de profissionais, levada pelos próprios amadores que ainda mantêm relações com os seus contemporâneos das categorias de base cuja ventura lhes agraciou.

Logo, o atleta amador é, em linhas gerais, um subproduto daquilo que o futebol contemporâneo se tornou: ele não nutre grande paixão por um clube – há casos em que ele alimenta uma irrefreável raiva dos times que lhe fecharam as portas quando novo, ora por um empresário diabólico, ora por uma contusão -, muito menos vai ao estádio. No mesmo horário em que as grandes agremiações entram em campo, estão ocorrendo centenas de campeonatos por todo o Brasil, onde jogam milhares de homens, correndo atrás da bola, alheios ao mundo que não lhes cedeu o que supostamente mereciam. Por isso, os atletas amadores se identificam mais com o jogo – o jogador, na verdade – do que com os clubes de futebol profissional. E basta uma televisão ligada, à hora de um jogo, numa birosca qualquer próxima a esses campos de pelada para notar que essa indiferença pelo grande circuito do futebol contagia toda a comunidade que possui um campeonato de pelada: todos querem saber mesmo é dos seus gênios locais, dos craques que não foram, dos grandes jogos entre um bairro e outro.

Tudo isso dá à paixão do brasileiro pelo futebol um molho a mais, mas também lhe ceifa o primordial: o amor insubstituível por um clube de futebol. Logo me vem à cabeça, ao chegar a tal conclusão, as palavras ditas pelo vocalista do U2, Bono Vox, sujeito entusiasta do futebol, quando sua banda veio ao Brasil realizar sua primeira grande turnê. Ele disse ter achado o máximo que os brasileiros tenham seus campinhos de futebol nos seus sítios e residências, que jamais presenciara isso na Irlanda ou em qualquer dos muitos países que já visitara. Talvez, ele tivesse perplexidade maior ao constatar que os brasileiros deixam de ir ao estádio para jogar uma pelada, que as peladas às quartas-feiras à noite, na hora nobre do futebol em todo mundo, estão cheias de gente de chuteira Nike e camisas de times europeus, bem na hora em que o time de infância de cada um desses boleiros está em campo, defendo as cores as quais que eles supostamente juram ser fiéis até a morte. E ai de quem disser a esses caras que eles não são torcedores que prestem. Não há ofensa maior ao brasileiro do que questionar sua paixão pelo futebol.

Não que eu me queixe disso tudo. Tendo a acreditar – e a me conformar, também - que essa característica seja exclusividade do brasileiro, o que lhe confere um controverso galardão. Só não caio na falácia repetida pela imprensa e pelos publicitários, principalmente nas vésperas de uma Copa do Mundo. Somos o país dos peladeiros, jamais do Futebol.

Vitor Gouveia

terça-feira, 4 de maio de 2010

Muita casca para pouco recheio


Acabo de ouvir direto das caixas de som do meu aparelho televisor que haverá uma mega mobilização da “torcida” corintiana para prestar auxílio anímico ao time do Parque São Jorge, pela segunda e derradeira partida das oitavas de final da Copa Libertadores, na quarta-feira próxima. Serão mais de 40.000 apitos para fazer um barulho que possa levantar o astral dos jogadores, criando uma atmosfera hostil para o nosso tradicional adversário, o Flamengo.

O leitor pode achar estranho o fato de eu ter ouvido a notícia sem registro visual, que é, em última instância, o fator de atração que consagrou o aparelho televisor como um amigo íntimo de cada pessoa que tenha até 50 anos de idade. Não que eu não goste da imagem da minha TV ou do mosaico colorido dos programas de esporte vespertinos – eles devem ser assim engraçadinhos, animados e coleidoscópicos devido ao fato das pessoas estarem abarrotados de comida em processo de digestão, entre um turno e outro do trabalho, loucas para uma sonequinha a qual só poderão desfrutar no sofá de casa, depois do pôr-do-sol -, mas não consigo ouvir o que não faria a menor falta na minha vida – seja pela pauta risível, pelos textos escritos nas coxas ou pela banalização do fato esportivo – em estado de prontidão, defronte à TV. Por isso, ligo a televisão e sigo dando continuidade aos meus afazeres cotidianos.

Não vi a face do repórter do Globo Esporte que soltou a notícia do apitaço, mas não se fez necessário. Pelas inflexões dadas ao texto, já deu para diagnosticar aquele clima de frango e farofa tão característico do programa que tem seu protótipo cada vez mais difundido na imprensa esportiva . Paralelamente à disseminação de subterfúgios retóricos e tecnológicos dos nossos periodistas existe um avanço geométrico de novas mídias e a abertura de novos espaços de exposição para a literatura esportiva – esse blog é prova irrefutável disso. Talvez a concorrência com os anônimos e amadores produtores de informação tenha acirrado uma prática comum da imprensa desde a época em que o tenro jornal impresso mexeu com as estruturas da sociedade ocidental: são nitidamente perceptíveis a produção de factóides e a sua obsessiva e massificada repetição. O caso do apitaço é só mais um entre tantos. Quem já não se acostumou a ouvir corriqueiramente expressões como “país do futebol”, “Flamengo hexacampeão brasileiro”, “os argentinos odeiam amar os brasileiros”, “a torcida do São Paulo é fanática pela Libertadores”… Há chavões para todos os gostos.

Ao abrir os maiores portais esportivos na internet, tenho a sensação de que o dia não tem mais vinte a quatro horas. São várias rotações no tempo de uma só. Num espaço de não mais de oito horas, as páginas, sejam elas as iniciais – correspondentes à primeira página dos jornais impressos – ou as relativas a um time ou a esporte qualquer que não seja o futebol – o miolo do jornal -, já estão completamente modificadas pela avalanche de novas imagens e informações. Os textos e fotos de horas antes somem feito um ladrão na escuridão. Meus amigos, ou a minha vida é uma chatice de novela mexicana ou o volume de novos textos é desproporcional. Em oito horas, se não houver um cataclismo no mundo, a vida de qualquer pessoa ou grupo de trabalho não muda assim feito um camaleão em temporada de reprodução. É muita casca para pouco recheio.

Pois bem, o jornalista nidifica no seu próprio engodo, no molde já enraizado por anos de veiculação. É como uma linha de montagem: pega-se o corpo da informação – já batida, repetida – e coloca-se o que é necessário para dar-lhe caráter autoral, mesmo que seja difícil imaginar que alguém tenha orgulho em assinar baboseiras tão rotundas. Mas como a informação é tão frívola e descartável, basta apertar o “atualizar” em qualquer computador de redação da vida para soterrar um texto sofrível por estilo, ou por enredo.

Volto ao caso do apitaço por ser deveras didático: o repórter reproduziu o fato que já estamos cansados de ver quando há alguma peleja importante a ser disputada por um clube brasileiro. Sempre há alguém ou grupo tresloucado que toma dianteira e resolve entupir a torcida de apitos – quem não se lembra do inferno da Libertadores de 2008 disputada pelo Fluminense, ao som de milhares de torcedores de final num assoprar infernal?. Comprados os apitos, chega a hora do sagaz repórter, que reproduz com um sorriso branco retinto a informação de que a torcida em questão vai utilizar milhares de apitos para “fazer a festa” e empurrar o seu time de coração para mais um triunfo. Hora, vejam: é esse mesmo tipo de repórter que volta da Argentina, quando vai à trabalho, relatando o clima místico das torcidas de lá. Os relatos sempre repetem as velhas máximas de que os argentinos cantam o tempo todo e empurram seus times com a força das canções de exaltação ao clube. Já viram algum repórter ou cronista que tenha visto uma torcida argentina in loco contar da beleza e da intimidação causada por milhares de apitos? Definitivamente, não.

Mas, se o tempo do noticiário urge feito uma morte anunciada, se existem dezenas de outros programas e materiais sendo concomitantemente produzidos no segmento esportivo, se o público vai dar de ombros para o fato de que apitar feito um guarda de trânsito não leva energia extra a jogador nenhum, por que não repetir a mesma mentirinha mais uma vez? Tal informação vai soar sempre tão natural quanto o triste fato de que mais uma vez uma grande torcida do Brasil vai apitar em vez de cantar. Mas, não tem problema, na hora de confeccionar as chamadas que promoverão o jogo das duas maiores torcidas do Brasil nos intervalos comerciais, já vai haver um arquivo santo que vai reproduzir a canção que a torcida do Corinthians não vai conseguir cantar à hora do jogo, seja pelos apitos, seja pelos torcedores de ocasião que têm bala na agulha para pagar pelos ingressos abusivos, substituindo assim aquele povo que vai aos jogos de menor apelo – esses que as emissoras aproveitam para gravar a musiquinha que vai embalar a divulgação da partida durante os dias que antecedem a mesma.

Se a previsibilidade da imprensa se restringisse ao caso dos agastantes apitos, eu me resignaria. O efeito nefasto sobre o futebol seria irrisório. Contudo, a produção de arquétipos via jornalismo já foi mais inspirada e menos danosa. Mas isso foi no tempo em que o dia tinha vinte e quatro horas e a página do jornal só mudava através da aquisição de um outro exemplar, na manhã do dia seguinte.

Vitor Gouveia

domingo, 2 de maio de 2010

Eu não, Professor!


Nesse Domingo eu fiz uma verdadeira viagem no tempo. Aquilo que jazia a sete palmos nos escombros do futebol arte irrompeu pela tela da minha televisão. Se o futebol era realmente aquilo que cresci ouvindo do meu pai, acho que ele veio dar um olá para uma geração acostumada a se envolver com tanta besteira que parece estar acoplada a santa bola, mas não está, definitivamente. O futebol é muito mais do que nos acostumamos a amar, sobretudo os mais jovens como eu.

Assisti a uma grande final de campeonato paulista. O deslumbrante Santos cumpriu a profecia dos fãs de futebol e da imprensa: sagrou-se o time da Vila Belmiro Campeão Estadual. O jogo foi fantástico. O valente Santo André fez um gol relâmpago, como fizera na semana anterior. Talvez por isso o clima de desespero não se instaurou nem na torcida, tampouco nos jogadores. Não dá nem para por na conta de uma suposta soberba santista tal indiferença à derrota parcial. Se no jogo anterior foi possível virar o placar, por que não nesse em curso ? O Santos igualou o placar depois de uma grande jogada do Robinho, num toque de letra genial. Neymar recebeu o doce passe e instaurou a esbórnia futebolística na área do Santo André. Driblou, derrubou um desesperado zagueiro. Golaço do menino! Ele é um grande jogador de fato, uma joia rara. Tomara que não façam um reality show com um garoto que foi mimado a vida inteira, que foi sempre o melhor entre os melhores e, que por isso, é um boquirroto em potencial. Tenho certeza que a língua frouxa há de se contentar em dizer somente o que for previamente analisado, quando a sabedoria atracar naquela cabeça vazia de adolescente.

O time do ABC seguiu fazendo o que fez em toda a campanha: jogou para o ataque. E jogou bem. Pôs-se na dianteira, novamente. Mas o personagem do jogo deu o ar da graça. Paulo Henrique Ganso num toque de letra sobrenatural - algum fantasma de algum torcedor preso ao mundo dos homens por não conseguir deixar o futebol deve ter lhe assoprado o rumo do passe - pôs Neymar na cara do gol, e o garoto não costuma perdoar: 2x2.

O jogo descambou para a batalha campal. O time do Santo André armou um desproprocional fusuê devido a uma das incontáveis farsas de Neymar. Nessa cavada de ator falido engendrou-se uma história que há de ecoar por muitas gerações, anabolizando o mito, construindo o relato indestrutível que contará sobre um garoto de 20 anos que jogou como um Rei astuto e experiente.

Após o quiprocó que levou ao vestiário um jogador de cada time, houve mais uma expulsão. O experiente Marquinhos deu um carrinho tão sanguinolento quanto estúpido no avante andreense e tomou o caminho de casa. Para rechear o drama - como se já não houvesse motivo para o roer de unhas do público - o azarão chegou à metade do cotejo com a vantegem de 3x2. Mais um gol e o título iria para o improvável Santo André.

O sengundo tempo foi morno. Mas foi morno porque assim quis o catedrático meia santista. Ele fez o que quis: passou a bola para o lado, virou o jogo, chamou as faltas - conseguiu todas elas -, deu passes verticais, conquistou suados laterais. O ritmo do jogo estava ao bel prazer do Ganso, o qual o apelido não posso conceber origem diferente que não seja o fato desse monstro da bola não olhar para a mesma, nunca, como tal ave jamais olha suas próprias patas, impetrando seu olhar galante para frente. Ela, a bola, é escrava do menino Rei. Ele a detém ao ponto de não se preocupar que ela lhe deseje escapar das suas travas. Ganso sabe que a redonda o adora, que ela não fugiria do seu domínio sem motivo aparente.

À essa altura eu já tinha esquecido as ridículas dancinhas, as chuteiras roxas e o absurdo caso em que os decantados meninos da vila se recusaram a prestar solidariedade a crianças excepcionais sob tutela de uma entidade espírita: estava torcendo, àquele instante do segundo tempo, pelo time do Paulo Henrique, que poderia ser qualquer um. Não faria a menor diferença fosse um outro time.

De repente, num devaneio de professor pardal, o terinador alvinegro, Dorival Júnior, resolve sacar o Neymar para lançar mão de uma figura já bastante conhecida pelos tricolores de todo Brasil. Um volante sem inspiração qualquer e que ultimamente voltou às manchetes por ter servido de guru religioso para os garotos da baixada santista no caso das crianças do centro espírita. O nome do medíocre jogador é Roberto Brum. Ele mesmo, meus caros companheiros. Não bastasse sua tétrica inoperância nas quatro linhas, agora o nosso velho amigo profere a intolerância religiosa nas concentrações da vida. E o nosso ex-jogador deixou o Santos com sete jogadores na linha, após um carrinho que deve estar na conta de Deus para a hora do juízo final desse profeta e jogador de araque. Mas foi bom; foi divino, arrisco-me a dizer. Um homem de Deus fez valer o ditado por Séculos reproduzido em nosso país: "Deus escreve certo por linhas tortas".

A partir daí, o jogo virou um solo do Ganso, ao invés da previsível pressão que viria do lado inimigo. Não há jogador, por mais burocrático e invisível que seja, que não se torne um titã numa final de campeonato contra o favorito reduzido a sete espartanos em campo. Entretanto, havia o jogador que só olha para cima, infante, em campo. Ele continuou fazendo o quis da partida; só que nesse momento, cada vez mais ilhado no ataque, cada vez mais encarcerado pelos marcadores.

Só que nesse voo solo do craque, o eminente professor pardal quis entrar. O treinador Dorival Júnior, nitidamente fora de si, resolve retirar Paulo Henrique Ganso para colocar um João qualquer, a fim de morrer abraçado com resultado que lhe daria o título mais importante de sua promissora carreira de técnico de futebol. E foi justamente na loucura a pulsar dos olhos do apavorado treinador que reluziu, em reflexo, o craque. O menino de vinte anos vira convicto para o chefe e diz "Eu não, professor. Eu vou ficar. Tem que sair o André", falando com a boca, olhos e braços, para ver se trazia o doido comandante de volta para a tensa realidade. Ou foi isso que subitamente aconteceu, ou o chefe da nau santista resignou-se a aceitar o desafio explícito à hierarquia do grupo que comandou com reconhecido sucesso. Assim como o nosso craque pediu, o seu treinador obedeceu. Saiu o André, ficou o Paulo Henrique.

Paulo Henrique Ganso ficou, jogou, ou melhor, desfilou como um cisne. Ganso já não é alcunha que lhe caiba. O Santos foi campeão com toda justiça.

E eu logo me vi diante de um craque que joga como os do passado, no seu próprio tempo. Assim como Nelson Rodrigues escreveu sobre Didi, eu me sinto à vontade para fazer uso da paráfrase: "Ganso imprime ao jogo o peso da lesma". E o que é mais delicioso: são os outros que parecem sempre irremediavelmente presos à gosma da lesma com a bola nos pés, enquanto ela mesma - a lesma de chuteiras - está nos gramados dando espetáculo, sempre livre, sempre desmarcada.

E não bastase o jogador espetacular fora do seu tempo - o passado -, ainda há o homem que se impõe ao burocrata da linha lateral, como fizeram Gérson, Pelé, Carlos Alberto, Didi e tantos outros habitantes do panteão do futebol deste país.

E que a conservadora "Família Dunga" tenha nos seus quadros o artista, a lesma, o cisne. Deixar esse super jogador de fora de um mundial não será passível de perdão, nem pedindo a intervenção do insólito Pastor Roberto Brum.

Vitor Gouveia

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Até semana que vem, Fluminense



Depois da derrota para o Grêmio por 3x2 - placar que praticamente inviabiliza ao Fluminense qualquer sonho de chegar às semifinais da Copa do Brasil - fiquei me perguntando sobre o que move o torcedor ao estádio; o que o traz sempre para o mesmo local e fazer a mesma coisa sempre, desde criança, quando esse vinha às vezes até compulsoriamente pelas mãos dos mais velhos? Mediante a sabotagem que se faz ao torcedor que sai sempre do aconchego do seu lar para ver o futebol in loco, só me resta afirmar que o futebol nos leva às raias da loucura: ou ele é bom demais para deixar de ser visto, ou é um vício que precisa ser tratado como o álcool, o cigarro ou a erva danada.

Vejam o meu caso: sou tricolor desde sempre. Acompanho o meu time desde as minhas primeiras lembranças. A terceira coisa de que me lembro na vida – a primeira coisa foi o nascimento da minha irmã, a segunda foi a minha primeira bola - é de estar colado na frente de um aparelho televisor, no ano de 1985, na casa dos meus padrinhos, assistindo sozinho a um jogo em que o Fluminense perdia para o São Paulo por 2x0, No Morumbi. Muitos podem brincar de psicanalista e dizer que o fato de me lembrar de uma derrota não é uma banal coincidência, que isso é um jogo mental fabricado pelas sinapses mais recentes do meu cérebro obcecado por um tempo, por um Fluminense que eu não vi, e não pelo atavismo remoto do período em que comecei a virar gente, e gente tricolor, sobretudo. Mas, meus caros, eu cresci sabendo que o Fluminense era o Campeão Brasileiro, que era o clube com mais títulos no futebol carioca, entre outros feitos homéricos narrados pelo meu pai. A derrota ali não impingira nada que abalasse o inexorável sentimento de vencedor que já preenchia meu coração. Eu sou testemunha ocular e viva dos últimos suspiros do Fluminense de outrora.

Pois bem, ontem, 29 de Abril, depois de trabalhar o dia inteiro, cheguei em casa apressado. Fiz meus contatos com amigos; resenhei, rascunhei o jogo com eles, pus minha camisa, cumprindo o mesmo ritual de torcedor que me seguiu até hoje e há de se repetir ao longo de uma vida inteira de devoção a um clube de futebol. Ao chegar à estação de trem, perguntei a bilheteira se haveria trem extra voltando do Maracanã após a partida. Ela me respondeu que não sabia com toda a calma de quem já passou a vida inteira respondendo a mesma repetitiva pergunta a torcedores desesperados. “Isso depende da demanda”, disse ela, como quem repete o terço. Quando cheguei à estação de São Cristóvão, um funcionário da Supervia me disse que, devido à demanda, haveria trem extra. Já dentro do Maracanã, minutos antes de começar a partida, um amigo meu que também fora de trem, disse ter feito a mesma pergunta que eu fizera, só que para um funcionário da estação Maracanã, recebendo, assim, a informação de que não haveria composição com destino à Santa Cruz após o término do jogo. Incrível, não? Não vou me alongar sobre o assunto, apesar de querê-lo muito, pois sempre que me deparo com jornalistas idiotas defendendo os jogos às 21:45 me vem à cabeça o problema do transporte, principalmente o do trem, que já me deixou incontáveis vezes na mão nesses anos de Maraca. Ao sair da estação, caminho a passos rápidos sobre a passarela que me deixaria em frente à bilheteria 8, cujo soldo de meia entrada a deixa sempre abarrotada. Como fui o primeiro a ultrapassar as roletas de saída da estação ferroviária, tive a graça de ser abordado por um cambista que me ofereceu um ingresso de arquibancada por R$ 20 – o preço da entrada é de R$ 30. A sensação desagradável de ser sempre abordado por esses infelizes foi maior dessa vez. Isso porque, a não mais que três metros do contraventor, havia um homem da lei: um policial militar a serviço dos cidadãos que iriam presenciar em instantes o calvário tricolor. Mas eu dou um desconto ao nosso Guarda Belo, pois ele parecia tão feliz e descontraído ao seu celular que não haveria mesmo de se importar com um mero cambista trabalhador que labutava à sua frente.

Ao chegar à fila da bilheteria oito, tomo a informação, através de um torcedor que estava à minha frente, que as bilheterias próximas a entrada do Bellini também estavam vendendo meias entradas. Como tenho direito a tal benefício, por ser professor da rede pública, para lá fui. Até aí o morreu o Neves. Só que a venda de meia entrada no Maracanã tem vida própria. Quase sempre ela acontece na bilheteria oito, mas há dias que ela ocorre também nos guichês da bilheteria cinco; já em outras ocasiões – ontem, por exemplo -, acontece em todas as bilheterias. Tal modalidade de venda não só tem vida própria como parece detestar o torcedor, já que o aviso prévio acerca das vendas nunca é feito.

Ao subir a pequena rampa lateral que dá acesso às catracas era chegada hora da revista. Aliás, revista, só se for a que eu levava na mão. A multidão passava pelo ralo cordão de policiais que ordenavam aos torcedores que levantassem a camisa, somente. Se eu estivesse portando uma arma de fogo na parte de trás da calça, entraria com ela no recinto placidamente.
Enfim, no Maracanã – não antes de acertar milagrosamente a minha carona de volta com meus amigos que foram ao jogo em seus automóveis, dando de ombros para os conselhos do Senhor prefeito do Rio, que, à época das medidas restritivas ao consumo de bebidas alcoólicas no entorno do estádio e do cerceamento do estacionamento na radial Oeste e outras vias próximas, sugeriu aos torcedores que usassem o nosso excelente sistema de transporte público -, era hora de desfrutar do meu Fluminense com novo treinador, Muricy Ramalho, multi campeão no São Paulo.

Pois bem, o Fluminense foi taxativo em relação ao seu futebol: não há elenco em Laranjeiras. Com tudo o que a torcida tem reclamado dos nossos principais jogadores, Fred e Conca, é preciso grifar e da forma mais clara e notável: sem os dois, somos um time sofrível. O primeiro não jogou devido a uma crise súbita de apendicite – e não vai jogar semana que vem, na segunda perna do confronto - e o segundo devido a uma expulsão infantil, na partida anterior contra a Portuguesa.
Depois de ter marcado merecidamente com André Lima, após um grande cruzamento de Mariano, o Fluminense jogou uma boa partida até o Jonas humilhar o nosso bicho preguiça, Leandro Eusébio, e se aproveitar do péssimo posicionamento do Digão. Fomos para o intervalo com uma derrota de 2x1 e um jogador a mais.

Nem assim o Fluminense conseguiu jogar uma partida aceitável. Quando o Diguinho é o único jogador com clarividência para passar a bola e virar o jogo – coisa que um time de escolinha faz quando tem uma peça a mais em campo – é sinal que as coisas vão mesmo mal. Não pelo Diguinho em si, mas pela posição que ele ocupa no meio campo. Não é ele que tem de ser responsável pela organização do time, por concatenar as jogadas. Aliás, o Diguinho é uma das poucas coisas das quais não se podem criticar no Fluminense. O mundo dá mais voltas que um carro da Nascar.

Levamos mais um como quem deixa um ladrão roubar uma velhinha. Ridículo! Por que o Ewerthon não deu pelo menos uma ombrada que fosse no Douglas? Para o final da partida entrou Equi Gonzalez, que mesmo sem ritmo, fez o gol que ainda nos deixa vivos.

Não foi por essa derrota exclusivamente que o Fluminense vem trilhando um caminho paralelo ao de sua verdadeira história. Desse caminho equivocado e traiçoeiro ainda se pode observar o verdadeiro Fluminense, logo ali, triunfando sobre os outros. Os velhos erros se repetem há décadas, frutos de um modelo administrativo que seria corretamente aplicável a uma confraria ou a sociedade dos idosos praticantes de dominó de Bangu, mas não ao Fluminense.

E, no final das contas, eu me pego pensando no mesmo em que estão muitos tricolores de arquibancada com eu, seguramente. Tudo parece conspirar para que eu fique em casa na próxima batalha que meu time vai travar: o preço dos ingressos, o translado, o time, as trocas sucessivas de comando, o nosso ébrio presidente, as filas colossais, os cambistas, a polícia, a nossa torcida encharcada de facções com procedimentos e interesses diferentes, o prefeito... Não faltam opções nesse cardápio infeliz.

Só mesmo aquele garotinho sentado no chão da casa da minha madrinha há quase 25 anos pra me por nos trilhos – não nos da famigerada supervia, e sim nos da minha própria vida – a cada final de semana. O Fluminense sempre será, na minha existência, o reflexo nítido e táctil do que viram aqueles olhos infantis no alvorecer dessa paixão musculosa.
Só me resta dizer, então, “Até semana que vem, Fluminense”, apesar de tudo.


Vitor Gouveia